quarta-feira, 22 de julho de 2009

Proposta Artística

O trabalho visa realizar uma pesquisa das relações entre escrita e dança. Uma pesquisa da escrita no sentido da sua forma, da sua estética, daquilo que é impresso e como transmite interpretações antes do entendimento do que está escrito. Uma pesquisa que não privilegia a semântica de cada palavra como ponto principal, mas foca nas significações das formas escritas; seja com o olhar voltado para alfabetos que tenham caracteres diversos como também da grafia particular e do discurso de si que essa análise pode produzir.
Os alfabetos são frutos da cultura. E, no estudo destes, percebemos forte intercâmbio entre as formas exploradas pelas danças folclóricas e pela arquitetura e as formas dos caracteres de cada idioma. Os alfabetos trabalhados foram o alfabeto japonês – que na verdade são três: o Hiragana, o Katakana e o Kanji, este ultimo é também o alfabeto chinês – e o alfabeto Abjad árabe. Se pensarmos nas formas retas dos telhados japoneses e chineses e na sinuosidade das construções árabes, entendemos facilmente que um alfabeto é um elemento estético de uma cultura tanto quanto a arquitetura.
Analisaremos, principalmente, as manifestações populares corporais destas culturas: Pesquisando a retidão e a precisão aplicadas à escrita e extremamente presentes no Tai Chi Chuan, nas práticas de Chi Kung e de Qigong; experimentando arcos e curvas sinuosas desenhados no espaço pelas mãos, braços, tronco, e quadril na manifestação folclórica árabe Balade que se aproxima da dança do ventre, em comparação direta com a sinuosidade da escrita árabe. Os registros culturais de um povo e sua identidade se revelam em toda forma de expressão. A escrita é um gesto essencialmente humano, é uma forma de expressão e este diálogo não pode ser desprezado.
A proposta coreográfica é a escrita do corpo, com base nas formas dos alfabetos anteriormente citados e suas relações com a cultura e outras expressões de arte, aliado à análise do movimento caligráfico particular e alheio dentro desse micro-universo de intérpretes. Influenciada pela própria cultura oriental, a pesquisa não se restringiu ao alfabeto, eclodiram inspirações a partir de posições de ioga, da temporalidade do Tai Chi Chuan e do trabalho de dilatação do tempo. Serão levadas em consideração as referências gráficas de cada intérprete-bailarino através da grafologia – uma pseudociência, pois, embora existam muitos estudos sobre este tema, não existem bases científicas que sustentem o uso dessa técnica. Contudo, segundo o grafólogo Michel de Grave, a escritura é um gesto fossilizado.
Através de análises de textos e cartas escritos pelo elenco sob uma perspectiva somente estética, desvelar-se-ão interpretações sobre as formas. Estabeleceremos relações com as qualidades do movimento, numa investigação que extrairá das palavras movimentos, não tendo como foco principal a semântica.
A proposta visa remeter à historicidade de alguns alfabetos, das relações com sua própria cultura e explorar essa interação de forma mais detalhada. Desse modo, permitir ao espectador visualizar interpretações antes do entendimento racional da escrita e proporcionar múltiplas visões do que se escreve e inscreve nos corpos, visões estas que ultrapassam a semântica imediata da escrita.

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